Novembro 27, 2009

Ser surdo não é ser mudo


A sala de aula é um ambiente de diversidade. Embora o docente tenha uma turma de discentes com a mesma média de idade e possibilidades de desenvolvimento, também é um ambiente de vivências pessoais, em que cada um tem uma história de vida diferente, ritmos de aprendizagens diferentes, e muitos fatores exógenos que influenciam, seja no relacionamento ou no rendimento. Segundo citado por Rafaeli e Silveira (2009, p. 38), “(...) não se trata de colocar a cultura surda de um lado, e a cultura ouvinte de outro, como se estivesse tratando de oposições binárias, mas trata-se de proclamar os surdos enquanto grupo social”. É, por isso, que o profissional deve lançar um olhar atencioso para cada ser, não cedendo espaços para generalizações. Estar atento a sua volta, pois quadros de problemas auditivos são exprimidos no ambiente, cabendo ao docente rever seu planejamento e até quem sabe o fio condutor de suas intervenções pedagógicas, para que esse sujeito não seja prejudicado em detrimento dos demais. Percebida e aceita a deficiência auditiva como diferença, o surdo precisa ser compreendido mais claramente em suas angústias, expectativas e demandas individuais e sociais. Pois, as barreiras comunicativas criam dificuldades de desenvolvimento cognitivo compatível de aprender como qualquer ouvinte e, na ênfase de que não deve ser dada à falta, mas total direcionamento a dimensão lingüística e cultural que caracteriza a diferença do surdo. O surdo que não ouve, mas porque desenvolve potencialidades psicológicas e culturais diferenciadas dos ouvintes, e que são baseados na linguagem e na experiência visual. Para Perlin e Skliar (2005, p. 57), “(...) a identidade surda se constrói dentro de uma cultura visual, essa diferença precisa ser entendida não como uma construção isolada, mas como construção multicultural”. Nesta linha, entende-se que a identidade dos surdos é o conjunto de traços que o distingue dos ouvintes, representada por uma cultura específica, resultante das interações entre surdos. Tal ser que vivencia a falta de audição num mundo de sons, o que impede de adquirir naturalmente a linguagem oral usada pela comunidade majoritária, portanto, baseando-se nessa diferença sua identidade é construída, utilizando estratégias cognitivas, comportamentais e culturais diferenciadas da maioria dos ouvintes. Um outro aspecto, sempre em pauta, que o importante da cultura dos surdos, é a adoção de uma ética da vida em seus comportamentos, pois, para os surdos, o que valida a ação é se ela atende ou não aos objetivos e necessidades básicas da vida, ou seja, sobrevivência, prazer e satisfação plena dessas necessidades. O docente precisa estar numa vertente nova de que o surdo percebe o mundo de forma diferenciada dos ouvintes, através de uma experiência visual e faz uso de uma linguagem específica para isso - a língua de sinais. Esta língua é, antes de tudo, a imagem do pensamento dos surdos e faz parte da experiência vivida da comunidade surda. Como artefato cultural, a língua de sinais também é submetida à significação social a partir de critérios valorizados, sendo aprovada como sistema de linguagem rica e independente. Este proporcionando meios para sanar a dificuldade de aprendizagem, afinal sujeito que pode ser ensinado aos conteúdos curriculares e participação ativa na vida social. A escola precisa estar aberta à cultura surda, precisa reconhecê-la como cultura, precisa proporcionar meios para que seus educandos surdos não sejam vistos apenas como o deficiente auditivo, mas como alguém que possui uma identidade cultural própria, significativa com características próprias. Esta instituição precisa proporcionar recursos lingüísticos para que o surdo possa se desenvolver de forma autônoma, preparando-o para enfrentar desafios, não o vendo sob o ângulo da surdez, mas da diferença.


Referências


PERLIN, Gladis T. T. Identidades Surdas. In: SKILAR, Carlos. A Surdez: um Olhar Sobre as Diferenças. Editora Mediação. Porto Alegre, 2005.


RAHAELI, Kátia Solonage Coelho e SILVEIRA, Maria Dalma Duarte. Língua Brasileira de Sinais: Libras. Indaial: Asselvi, 2009.


Paper- Canteiro Pessoal

Outubro 25, 2009

Educação?!



Taí uma palavrinha que eu aprendi desde cedo... embora em lar onde meus "pais" tinham pouca escolaridade. Engraçado que neste ambiente de nenhuma palavra rabuscada, de nenhum livro ganhado ou lido na infância - além dos poucos e raros livros didáticos - e da presença constante de quem não podia me ensinar a lição porque simplesmente sabia ler pouco e escrever menos ainda aprendi o que é ter educação.
- "Lu, agradeça..."
- "Lu, fale a verdade..."
- "Lu, seja simpática com a visita..."
- "Lu, cumprimente e dê atenção às pessoas conhecidas da rua, especialmente aos mais velhos..."
- "Lu, venha que mamãe vai te ensinar a cuidar do livro e fazer o dever de casa..."
Isso eu aprendi com quem sabia muito pouco de letras e um mundo de sabedoria! E aprendi ainda mais... aprendi que é preciso cuidar do que se possui, aprendi que é preciso lutar pelo que se deseja, aprendi que é feio mentir, brigar, roubar... isso minha maior e melhor escola me ensinou: minha família!
Aos 7 ou 8 anos de idade eu já sabia o que queria ser. Desde que olhei uma velha máquina de datilografia e alguém que a utilizava com a precisão de quem entende bem do que faz... naquela hora eu olhei e disse de mim para meu eu: um dia eu serei assim! E aquele "assim" de criança é o que sou hoje, é o que hoje eu faço, é o que hoje eu vivo: a missão de educar. Viva, educadora!
Viva mesmo! Porque são inúmeras as realidades destes que estão para educar... é triste ver que pra alguns o verbo foi forçado, forjado, ferido e viver se torna verbo instransitivo: não "precisa" de complemento!
E foi um sonho de criança como foi votar em Lula... consegui! E agora?! Pelos vastos sentidos e significados desta palavra de essência tão bela, tão grande e por vezes tão ferida, ficam em meus ouvidos as palavras do Pessoa: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena".
Meu sonho?! Estou vivendo-o. E outros sonhos virão... viverei cada um com a esperança de criança que vive em mim na certeza de que muitos outros sonhos virão e eu, enquanto houver vida, os viverei! Grata ao Grande e Amado Yeshua pela certeza de que é sempre possível recomeçar...
Que tal pensar no seu sonho, para onde ele foi ou em que se tornou? Hein, hein? rsrs
Beijos grandes com muito axé!


LU MARIA

Setembro 24, 2009

Prontidão da Música


A música tem o dom de tocar as pessoas; cativa e prende os sujeitos. Poder de mexer na alma, no corpo e no espírito. O olhar nu do infantil no elemento denotado música vai por conduzir de tijolinho por tijolinho. Nesta construção biográfica a expressão do expressar-se de outra maneira, sendo seres imperfeitos capazes de integrarem ativamente na sociedade, porque ela ajuda a desenvolver autonomia nas atividades habituais; o assumir zelo de si em primeiro e ampliar o mundo de relacionamentos. Para Bréscia “(...) muda padrões de comportamentos e acelera o processo de cura”. Ativa caça ao rumo do futuro hoje sonhado e bem vivido em atuação; estimulando o gosto de estar criando e recriando, inventando e reinventando com formas de aprender melhor com integridade o seu quadrado e do semelhante, e com absoluta certeza da alforria de papéis, uma cultura ensinada. Um ar soberano que reina venturoso, o mesmo ar que entrelaça o primeiro vôo de uma borboleta que há pouco descobriu o que é voar.
O papel da música nas instituições educacionais contribui não apenas como experiência estética, mas também como facilitadora do processo de aprendizagem, como instrumento para tornar o âmbito escolar um lugar mais alegre e receptivo. Gainza relata que “a música e o som, enquanto energia, estimula o movimento interno e externo do homem; impulsionam-no a ação e promovem nele uma multiplicidade de condutas de diferentes qualidade e grau”. Assim, atuante no proporcionar discentes melhores na leitura e na matemática quando em alfa na escola, pois já estão desenvolvendo partes do cérebro que não seriam desenvolvidas se não tivessem iniciado esta atividade. Sendo capazes de melhor concentração e controle de seus movimentos. No brincar melhor com outras crianças e por possuir melhor auto-estima, pois a música desenvolve um senso de trabalho em equipe que se alarga a outras áreas da vida. Segundo Barreto “(...) contribui de maneira no desenvolvimento cognitivo/lingüístico, psicomotor e sócio-afetivo da criança”. Através da música a criança está experimentando o mundo, os movimentos e sons que a vida faz, tendo assim, elementos para desenvolver atividades mais elaboradas e procedimentos de atuar unisso no futuro. Favorecendo o entendimento de certos princípios da vida, como o de colaboração, divisão, liderança, obediência às regras e competição. Também, desenvolvendo mais a inteligência e o demonstrar de maior interesse pelo aprendizado.
As camadas mais profundas da personalidade do ser criança sofrem um bombardeio poderoso das letras musicais que se lêem e, atuam de maneira que não se pode avaliar como um resultado isolado, mas integral no aprendiz. Sendo integral nos educandos, pois forma porque ensina. Gainza ressalta que “(...) contribui ativamente para a afirmação ou para ordem mental do homem”. É sabido que culturas diversas utilizam a música, para mudar um sistema social ou ensinamentos. Quando segue esse princípio, cumpre um papel humanizador e leva a via de fatos à melhoria dos discentes, contribuindo para que sujeito se encontre no outro sujeito. Na escola, tornando o aprendizado bem espontâneo e sadio, garantindo à criança um desenvolvimento pleno.


Canteiro Pessoal
[paper-faculdade]

Agosto 13, 2009

De mãos dadas

Muito podemos falar sobre educação, tendo em conta que cada pessoa - atuante ou não na área - já passou por uma sala de aula e provavelmente guarda com carinho na lembrança a presença amiga de um professor ou de um colega querido. Eu, por exemplo, tenho um grande amigo que conheci na escola, na 5ª série... 15 anos de amizade desde 1994 até aqui!
Esta parceria entre o Jardim Secreto e o Aqui... Entre! Nós. não poderia ser diferente no que se refere ao vínculo de respeito e amizade vivenciado através das palavras. Estas mesmas das quais falava Cecília: "Palavras, palavras... que estranha potência a vossa!"
Começamos de mãos dadas poetizando o sentir-se educando e educador a cada dia, em cada gesto, em cada sonho. E assim, os dizeres de poetas nos enchem a alma para expressar o desejo de ser tão lindo e profundo como expressa Tiago de Melo... "Lúcido escrevo de uma vez por todas que confio no amor e na utopia!"
Educação, educando, educador... sendo o terreno fértil ou não! Eu, como menina que mal sabe o seu papel neste imenso mundo de palavras e cálculo e relações, falo do que vivo e do que sinto na tentativa de ir construindo e reconstruindo a cada dia um novo olhar. Autônomo:

E-du-ca-dor

Não quero méritos nem honrarias.
Não aceito meu nome gravado
Em nenhuma parede monumental.
Não quero elogios vãos, nem prestígio, nem fama.
Quero o direito, apenas, de ser:
Educador!
Não quero os troféus ilustres nem as festas pomposas.
Basta de apausos! Todos num único dia...
Quero ser. Apenas.
Eis o veredicto! Sessão encerrada!
Educador para sempre.
Seja em uma sala, em uma cela, em uma jaula.
Serei. Apenas.
Eu com minhas roupas simples
E um riso rasgado nos lábios.
Felicidade? Vida, talvez.
Estou sendo. Deixe-me ser! Seja comigo!
De mãos vazias, de mãos sujas, mas puras.
No campo, na cidade, na escola, na comunidade:
Um educador!
Eis a glória sem platéia.
Eis o brilho na neblina.
Eis a cruz, eis os cravos, eis a vitória.
Quero apenas ser:
Educador!
Com direito a dizer que dói e que fere
A própria dor de ser e não ser...
E-du-ca-dor.
Tarefa difícil? Sei que possível.
E é apenas isso que quero:
Respeito.
Pela minha lágrima, pelo meu labor.
Deixem-me ser!
Apenas isso a vida me ensinou a querer.
E sendo serei vivo, serei audaz,
Serei mestre, serei irmão.
Sem cor, sem nome, sem credo,
Sem quietude, sem partido.
Apenas eu. Seu e meu:
Educador!
Meu abraço com muito axé!
LU MARIA

Julho 18, 2009

Os Sons do Infantil na Infância


A fase do infantil na infância é a mais importante, onde instiga a voar mais alto, enxergar mais longe, ir além. Linguagem do descobrir limites, verdades, mentiras e mitos. Esta tendo como finalidade proporcionar condições adequadas para promover o bem-estar, o desenvolvimento físico, cognitivo, afetivo e social, ampliando as experiências e conhecimentos de mundo. O melhor estágio para iniciar a emancipação mediante a função liberatória da palavra através das relações que se adquirirá com o meio social, seja familiar, escolar e em sociedade. Processo de comunicação e consequentemente de aprendizagem, e sabê-la significa compreender a si mesmo, suas relações sociais, o mundo que esta significa.
A criança nem sempre foi reconhecida como um ser que merecia atenção e valor. O silêncio lhe outorgado era tamanho e entardecia a metade do espelho estalado pelos punhos de um monólogo longo a cruel no íntimo onde às respostas tardias se colaram caminhos escavados com a alma cheia de nada. Dos dias sem colorido e, eco, assim, com metáforas irônicas por adultos. Num pressuposto estático, linear e harmônico de que a criança sempre a mesma em qualquer tempo e espaço.
O conceito de infância fundido a partir das relações sociais e não em função de uma essência ou natureza criança. A ideia desta desvinculou-se dos fatores econômicos e sociais, concebendo a fios anos como um fenômeno metafísico, respaldado pela teoria evolucionista. Sem atentar nas diversas formas de ver a criança e sua particularidade e peculiriaridade, onde esta varia de acordo com a cultura concebida.
No falar infantil, o ser expressa sua identidade, que nunca é uniforme, e o país respira a diversidade, que nos uni. Dotadas de capacidade inatas, de potencialidade e ser incompleto e imaturo, necessitando o modelar, ensinar e educar. Onde importante é o brincar com intencionalidade educativa; costurá-los numa perspectiva que se caracteriza comportamentos desejáveis e por atividades envolvendo pensamentos, reflexões, ideias e aprendizagens. Segundo Chomsky citado por Luft (1975, p. 108), “(...) predisposição inata da criança em desenvolver um certo tipo de teoria para tratar as informações que lhe são apresentadas”.
A idéia de infância nos é tão óbvia que pouco paramos para refletir sobre ela. Acostumamos dar atenção num ato de acomodação ao monólogo de outrora ensinado e por teimosa atua no atual, diversas vezes, como amigo íntimo. Não permitindo o capaz de discernir se a pena pesa ou não na mão pela forma de nos expressar em mudança. Metamorfose perfeitamente num fado reconhecido da essência de som que a criança emite na infância. Em que aprendizagem e abrir de leque resulta de uma inter-relação entre o sujeito com o meio social, familiar, escolar ou em sociedade. Segundo Chomsky citado por Luft (1998, p. 85), “(...) a criança vai construindo, para si mesma, sem verbalizar e sem dar conta disso, uma teoria...”.
O papel das instituições educacionais junto à infância é fundamental para possibilitar espaços de brincadeiras, diálogos, argumentações, negociações, expressões de sentimentos, idéias e sensações. Pois, o que nos constitui humanos são as interações e relações sociais. A infância é uma etapa primordialmente fundamental da vida para aprender no brincar. Através do brincar a criança está experimentando o mundo, os movimentos e sons que a vida faz, tendo assim, elementos para desenvolver atividades mais elaboradas e procedimentos de atuar unisso no futuro. Favorecendo o entendimento de certos princípios da vida, como o de colaboração, divisão, liderança, obediência às regras e competição. Também, desenvolvendo mais a inteligência e o demonstrar de maior interesse pelo aprendizado.
A criança não é um ser isolado, se constitui nas relações sociais, nos mais diferentes tempos e espaços presentes em sua vida. Da compreensão duma dimensão de cidadania, onde passa a ser entendida como sujeito de direitos e deveres e em pleno desenvolvimento desde seu nascimento. Segundo MEC citado por Wolff (2005, p. 23), “(...) a criança é um cidadão... um sujeito sócio-histórico-cultural...”. Em que no azul de seus olhos esconde um mar profundo e fantástico e, com a transparência de pensamentos férteis. Segundo Machado citado por Wolff (1992, p.62), “(...) um cidadão com lugar definido na sociedade... sujeito cognoscente desde que nasce”.
Os docentes-professores e âmbito familiar foram educados para olhar pensando o mundo, a realidade, no eu mesmo. Num olhar cristalizado nos estereótipos que produz paralisia, fatalismo e cegueira. E para romper esse modelo autoritário, a observação e análise de si mesmo são ferramentas básicas neste aprendizado da reconstrução do olhar sensível e pensante no quadro do próximo. Pois só pode-se olhar o outro e o papel da infância e, sua história, se os participantes do educar dão uma abertura de aprendiz que se observa - se estuda - em sua história e essência. Na ação do olhar estudioso, curioso, questionador, pesquisador, envolvendo ações exercitadas do pensar: o classificar, o selecionar, o ordenar, o comparar, o resumir, para assim, estar apto no interpretar os significados do ato de estudar a si próprio e o próximo com cautela numa ação de tom sem tom. Pois só se pode escrever música de infância sem tom do estereótipo. Nas cantigas cantar segredos do infantil bailante, a única maneira de escrever sem armadura. O aprender achar-te do silêncio em nós e, para ouvir a melodia das crianças fundamental entre as notas. Assustar as pessoas assustadas por tantos ruídos. Ruídos adultos no impossível ouvir do silêncio falante em vida de cada pequenino. Assim, trilhar-se em desenho sobre olhos fechados da imaginação e sem o estereótipo mortífero. A imagem sobre a imagem do infinito na estampa de bocas e seres angelicais mortais repletos de saltos, giros e rodopios em sede de entrega quebrando paradigmas. Numa mistura complexa de passado, presente e futuro esboçado no íntimo e num misto de cores e palavras sentidas pintando ingredientes secretos do que é dançar os sons do infantil na infância. Segundo Freud (1908, p. 16), “o poeta faz o mesmo que uma criança que brinca: cria um mundo fantástico e o leva muito sério”.


Paper [Faculdade] - Canteiro Pessoal

Junho 12, 2009

Prelúdio Educacional


O iniciar foi no prelúdio de ouvir o conselho de minha mãe, ao optar pela tal, que muito insistiu a todo custo seguir pelo trilho da educação. A decisão do sim me assustou, tremi na base, pois era uma pessoa extremamente tímida e não conseguia falar ao público. Confesso, que entrei nestas águas, num pensar: - Eu, numa sala de aula ? Não dou para arte do educar ?
Lembro-me como se fosse hoje, um fato, que foi um somar neste prelúdio. Eu ia andando pelo trajeto de sempre e olhava tudo a minha volta, mar de pessoas e uma em especial saltava meus olhos, um Síndrome de Down e em pensar tudo o que lhe fazia diferente. Ainda não percebera que na verdade estava sendo fisgada de uma atenção muito rara, livre de quaisquer resquícios preconceituosos. Via tudo, e pouco a pouco fui notando, que estava percebendo o meu redor por um novo ângulo, do amplo para o profundo. Assimilando ali, a ideia irrefutável de que nada é por acaso, e pronto ! Assim, que iniciei o magistério, coloquei meu nome para estágio remunerado e para meu espanto o lugar que me chamou foi a Pestalozzi e lá, por casualidade, me deparei com o ser que saltava meus olhos, e, como um filme colorido, vi minha história o passado, o presente e o futuro num encaixe preciso do aval de que estava na escolha certa. Neste lugar adquiri um aprendizado sem igual, passando por todas as salas como segunda professora e palavras no Aurélio são insuficientes para tal descrever, mas posso como um adoçar de curiosidade relatar que meus valores foram refeitos, pois o efeito que o relacionar, conviver com cada ser de uma grande limitação extrema marcará em meu íntimo, causou uma virada de questionamentos e insatisfações gigantesca, mudando de direção meu foco umbilical constantemente.
Após, o estágio dei continuidade por fazer cursos e no me informar sobre a área, numa busca desenfreada, pois queria e quero no atual estar inserida no contexto numa totalidade profunda para pôr e agir como se deve no respeito de limite e grau de deficiência, cada qual tendo seu tempo de maturação e aprender que lhe é entendido com coerência e significado; socializá-los como sujeito tão qual importante que outros denotados normais. Se é que exista normais [!?] Todos nós possuímos grau de deficiência.
Tenho como perfil docente [psicóloga/terapeuta], uma porque atuo na área da inclusão, de degrau por degrau, passo a passo e de que não caminham ao meu ritmo, mas eu no caminhar ritmal de cada um. Procuro no máximo adaptar todos os conteúdos, para que seja bem ingerido e compreendido, também não se sintam rejeitados por não estarem dando conta de tal assunto como os demais.
O disco arranha do ontem e agora, palavras em minha mente que toca a canção do amadurecimento dia após dia, percebendo o tempo exato do som que eu preciso ouvir sempre. Ouvir as milhares notas do sondar, estudar e interagir que não enjoa e todas as outras notas que ainda vou descobrir. Também, no momento de cada detalhe apreciar a pureza e delicadeza do dia-a-dia e aprender dividir/compartilhar o instante; perceber a vibração, estar em conexão constante com a durabilidade do ensinar e aprender. Ser o "nós" e virar um só; no entendimento do sorriso, da lágrima, da expressão sincera.
Sentir assim, suavidade da arte do educar cercar a matéria numa obra-prima rica. Olhar-se no espelho e ver o reflexo da essência. Metade na pele, metade no coração, metade na alma, para atingir a inteireza. No descobrir/garimpar o que quero ainda mais do papel educação, pois sei que não vim a passeio, mas para uma missão. Levantando voos interiores e indo à busca planando no ar e aterrissando na ilha que me proporciona suspirar profundo e intenso. Com finalidade de transformar, trazendo a existência todos os desafios propostos e os mantendo em ação plena. E através do interagir, relacionar com o indivíduo; provocar um impacto.
Profissional em plena consciência que precisa disponibilizar em cada indivíduo mecanismos e ações para a formação de uma vida digna e plenamente saudável. Oferecendo para sua formação no desenvolvimento, no se instruir e buscar; atentar à saúde mental, física e espiritual e lazer. No respeitar e promover a diversidade cultural em todos os sentidos; esclarecendo metas e propostas de avanço para cada indivíduo, onde se sintam participantes diretos e também, no propiciar a estes o direito de inclusão social. Instigar e contribuir de forma positiva e qualificativa na formação, aprendendo e caminhando com estes. E que o estilo de aprendizagem de cada indivíduo dá-se por princípios, valores que permeiam todo o processo.
Acredito na proposta de Vygotsky, "(...) a linguagem, internalizada, passa a (...) funcionar de organização do conhecimento. Aos conceitos cotidianos ou espontâneos". Assim, tendo em vista sociointeracionismo, fundamentado na ideia de que o intercâmbio social do ser favorece a aprendizagem. Sendo a linguagem a principal ferramenta de interação homem-meio social, é no grupo cultural onde o indivíduo se desenvolve, que seus conceitos serão formados, nomeados por palavras da língua utilizadas pelos falantes desse grupo. Desse modo, diferentes culturas produzem maneiras diferenciadas de funcionamento psicológico.


Memorial Descritivo [Faculdade] - Canteiro Pessoal